Dicionária Aurélia Buarca de Luanda de Neologismos e Ressignificações da Justiça Social

A – apropriação cultural. Fazer qualquer coisa fora do estereótipo cultural norte-americano de pessoa branca se você for pessoa branca. A obrigação de uma pessoa branca é se adequar ao que o racismo da justiça social decreta que uma pessoa branca deve ser.

B – Beyoncé. Messias da Igreja Interseccional que não problematiza o capitalismo. As manas podem alegar que Queen Bey está errada em ganhar dinheiro, porque para a justiça social roots from the hood ganhar dinheiro é feio e imoral se você não distribui tudo para os pobres, como ordenou Jesus.

C – capacitismo. Neologismo inventado muito recentemente por uma ‘cientista’ social com nome e sobrenome como tradução para o termo “ableism”. Inventar palavras agora é sucesso acadêmico.

D – desconstrução. É o politicamente correto para destruição. O que deve ser destruído? Tudo o que a Direita alegar que é bom, ué. A revolução não será tradição. Usado frequentemente por pós-modernos que não sabem que são pós-modernos que foram doutrinados por confusões de segunda mão com origem no charlatão Jacques Derrida.

E – expor. Criticar publicamente algum pseudointelectual que fala bobagens também em público a favor da justiça social. É errado fazer isso quando você não é adepto da justiça social, portanto não usaremos a palavra “crítica”, mas “expor” e “exposição”.

F – falsa simetria. Uma falsa falácia que não consta em nenhum manual de falácias, mas cuidadosamente nomeada de uma forma a soar como ‘falsa equivalência’, ‘falsa analogia’ ou ‘falso dilema’, mas não chegar a ser nenhuma dessas coisas para o justiceiro social que acusa falsa simetria não ser obrigado a mostrar cuidadosamente onde foi cometido um erro de raciocínio. Também é o politicamente correto para um peso e duas medidas, para fazer a mesma coisa que se proíbe para os outros sem peso de consciência pois essa hipocrisia está inclusa no cânone conceitual da justiça social.

G – gordofobia. A invenção de que ser obeso é totalmente análogo a ser gay numa sociedade homofóbica. Quando eu era criança, por exemplo, eu ouvia o tempo todo de gente preconceituosa que o Jô Soares usava um brinquinho na orelha direita porque isso é coisa de gordo! A analogia é tão perfeita que, vejam só, os malvadões médicos transformaram pesar 250kg em doença, da mesma forma como fizeram com a homossexualidade no passado! Todo mundo sabe que é perfeitamente possível ter saúde e pesar tanto quanto uma cachalote grávida. Médicos gordofóbicos!

H – homolesbotransfobia. Aquele trava-língua básico para te fazer parecer inteligente e socialmente engajado, diagnosticando a piadinha inocente ou o comentário descuidado do coleguinha com um termo que parece ter saído de algum manual de psiquiatria. Em nome da inclusão de mais grupos oprimidos, o termo foi atualizado para “homolesbotransbixenogordoislamofobia” (e variações que dependem do humor) por Betine Bombom, maior especialista em justiça social do mundo. Mas tome cuidado: esse termo é capacitista porque dificulta a vida de disléxicos.

I – invisibilização. Não sei se você sabe, mas a sociedade é uma passarela da São Paulo Fashion Week, e a vida é aparecer nela. Se você não aparecer, a vida não vale a pena e sua existência não significa nada. Não ficar apontando a cor, sexo, orientação sexual, deficiência e outras características de suculência vitimosa no coleguinha é cobri-lo com a capa de invisibilidade do Harry Potter. Apareço, logo existo.

J – justiça social. Esta é a Caaba dos justiceiros sociais, em torno da qual circulam com uma fé inabalável. O problema é só que é mal definida, mas tudo bem, encontre quais identidades são marcadas pelo santo rótulo de “vítima” da sociedade, e quais são marcadas pelo ferro em brasa de Satanás como “privilégios”, que você saberá quando deve fazer autoflagelação, como aquele albino fanático do Código DaVinci, e quando deve se empoleirar e agir como se fosse a nata da sociedade (soberba e prepotência neste caso são virtudes, vejam por exemplo como se comporta Djamila Ribeiro et caterva). Lembre-se: se é realmente justiça, tanto faz se é “social” ou não.

K – Kokay, Erika. Justiceira social do PT que teve coragem de ir fazer campanha na cerimônia de homenagem da estudante da UnB assassinada pelo namorado provavelmente psicopata. Co-autora de projetos de lei cheios de absurdos, como o que pretende remover a mediação médica de tratamentos com hormônios sexuais e cirurgias de mudança de genitália.

L – lesbofobia. Termo especialmente útil para as manas caminhoneiras misândricas que não sabem que “homo” em “homossexual” não significa “homem”, mas “igual”.

M – movimento. Termo alternativo para seita dogmática e autoritária que quer forçar a sociedade a se ajoelhar diante de suas entidades sagradas, como a igualdade de resultados, pois não tem capacidade de convencer ninguém com argumentos. Lembre-se: se tem bons argumentos, não precisa de movimentos. De movimentos já bastam os peristálticos que usam para produzir TCC’s e dissertações de mestrado de humanas.

N – negro. Para entender esse termo, primeiro você precisará entender que é sinônimo da cor preta, só que não. Por exemplo, quando for pra lacrar e agir com arrogância e racismo dentro da seita da justiça social, se você é morenx na verdade você é negro, pois só negros têm autorização da justiça social para serem racistas, então é bom que você se certifique de que está incluso na categoria, ignorando a raiz da palavra. Exatamente a mesma coisa vale para quando você quiser inflar as estatísticas e alegar que mais de 50% dos brasileiros são “negros”. Mas quando for pra pedir cotas raciais, esqueça isso, você é branco. Acredite: você não vai querer lidar com o ISIS da justiça social que policia a cor pantone de quem pede cotas. Se sua razão de Toddy para leite é menos que 1000:1, pode esquecer, você é branco nessa situação e deve ficar bem longe, de preferência se flagelando pela sua branquitude. Aqui vale o Princípio da Incerteza de IBGEberg, também conhecido como “pardo de Schrödinger”.

O – opressão. Originalmente, opressão significava um estado de impotência (principalmente econômica) e falta de liberdade de indivíduos e grupos sob o domínio de uma força clara e distinta: os ‘intocáveis’ (Dalits) na Índia são oprimidos pelo sistema de castas e pelos grupos que se dizem castas superiores. Os negros sob o Apartheid africano eram oprimidos por uma minoria branca colonialista. Como a justiça social glorifica o estado de vitimização, obviamente há interesse em corromper o termo “opressão”, que agora tem tanta semelhança à sua conotação original quanto um Pincher desdentado tem semelhança com um lobo. A conotação econômica foi removida e substituída por preocupações pseudo-econômicas cujo único objetivo é xingar o capitalismo. Os opressores claros e distintos foram substituídos por termos vagos, ficaram fantasmagóricos e inefáveis (ver termo abaixo). Ou seja, tudo o que poderia ser usado para definir objetivamente alguém ou alguma instituição como oprimido ou opressor foi substituído por subjetividades maleáveis, rígidas somente no quesito ideológico de sempre maldizer o capitalismo e sempre elogiar ou diminuir os efeitos nefastos do socialismo.

P – patriarcado. É um gênio maligno fantasmagórico todo-poderoso, que a tudo perpassa, a quem a culpa por toda unha encravada de uma mulher pode ser atribuída. Feministas falam do patriarcado como adeptos da Igreja Universal falam de encostos e do demônio. A definição nem importa muito, o que importa é xingar as sociedades ocidentais de patriarcais, ou inventar alguma hipérbole fraudulenta sobre elas, como a de que são “culturas do estupro”. Lembre-se: a pessoa adepta da justiça social fica molhada em se imaginar vítima, por isso é conveniente sempre cuspir no prato em que literalmente comeu sem qualquer compromisso com precisão factual.

Q – queer. Originalmente era só “viado” em inglês. Mas esse termo não tem definição, e é de propósito. Apesar disso, tem várias funções. Ser viado ou lésbica não impressiona mais a ninguém, e homossexuais conquistaram (quase?) todos os direitos que não tinham no Brasil, infelizmente pela via do ativismo judiciário em vez de pela via da educação da população e o voto de seus representantes. Dizer-se “queer” é tentar manter o status anterior de vítima que todo mundo sabe que não é mais exatamente assim para gays e lésbicas, e se fazer de diferentão em meio a viados e lésbicas apesar de não ser mais nada que viado ou lésbica. Mas não é só isso: serve também como uma sinalização de membresia num grupo de iluminados adeptos do pós-modernismo que usam um jargão inútil para fingir que sabem coisas profundas que o resto de nós não sabe. Não é coincidência que foi chamada de “Queermuseu” uma exposição com arte moderna lixo (pleonasmo) posta de forma desorganizada com pinturas e desenhos de boa qualidade antigos (como uma pintura de Pedro Américo de um adolescente, que o curador alegou ser erótica com base em porra nenhuma).

R – representatividade. Sob esse termo vemos que quase todos os adeptos da justiça social são analfabetos em estatística. O que querem dizer com isso é que seria moralmente obrigatório que qualquer grupo, especialmente de profissionais, seja uma amostra aleatória e representativa da população de acordo com as identidades “oprimidas” favoritas. Se qualquer grupo não for amostra aleatória e representativa, então a única explicação aceitável é que aquele grupo é pecador, digo, homolesbotransbixenogordoislamofóbico racicapacimachista. Isso é insano, mas pouco importa, justiça social é uma insanidade sistematizada. Há analfabetismo estatístico aqui porque, logo de cara, qualquer pessoa informada em estatística vai prever que um grupo pequeno de pessoas, só por ser pequeno, não poderá ser uma amostra representativa da população. Esse fenômeno por si só oferece uma explicação alternativa à explicação moralista da justiça social, e nenhuma explicação alternativa será tolerada.

S – sociedade. Uma massinha de modelar que deve ser achatada por ativistas a uma forma de panqueca uniforme de igual altura em toda a sua área, do contrário é abominável e deve ser destruída.

T – trabalho. Algo que só ingênuos fundamentalistas alegam que “dignifica o homem” (“o homem”? Machistas!), mas que na verdade não vai mais existir, não dessa forma assalariada abjeta de hoje, quando a justiça social for implantada. No futuro inevitável todos só trabalharão ‘caçando de manhã, pescando de tarde, cuidando do gado à tardinha e se engajando em crítica literária depois do jantar’, como nos diz o profeta Marx, que a paz esteja com ele. E isso é científico, não utópico. Até lá, subvertemos o sistema ganhando bolsa de pesquisa para ficar falando abobrinha em nome da justiça social e fingindo que isso é trabalho acadêmico.

U – ultraje moral. Estado mental permanente de adeptos da justiça social. Nenhum outro estado deve ganhar dele – curiosidade, contentamento, cabeça fria é coisa de quem aprova o status quo de opressão. Dessa forma, quando há por exemplo um caso proeminente de, digamos, racismo, aborde tudo com ultraje moral e indignação, não se pergunte se o perpetrador é um fracassado isolado tentando ser ‘edgy’ e troll na internet, faça milhões de pessoas saberem que o que o troll fez é representativo de uma população de 200 milhões e um problema sério dessa população; isso não é sucesso de trollagem, é só ultraje moral dos iluminados trabalhando.

V – vagina. O mais importante órgão de toda a espécie humana, sobre o qual devemos fazer arte de exaltação, e que sempre deve ser mencionado em discussões sobre as relações entre os sexos. Pois todo mundo sabe que machistas odeiam vaginas, e a coisa mais feminista a se fazer é tratar mulheres como vaginas com coisas irrelevantes em torno.

W – womyn. Grafia alternativa de “woman” que feministas anglófonas inventaram porque acham que a sílaba “man” coincidir com a palavra para “homem” significa que a língua inglesa é intrinsecamente machista e trata mulheres como subordinadas a homens. I kid you not. Qualquer semelhança com a língua do “x” e do “e” que estão tentando implantar no português não é mera coincidência.

X – terminação impronunciável para evitar declinações gramaticais de gênero em adjetivos e substantivos. Criticada por alguns justiceiros sociais não por ser estúpida e presumir uma tese implausível sobre as origens da língua, mas por supostamente ser capacitista ao dificultar leitores eletrônicos de texto para cegos. As únicas críticas aceitas na justiça social são aquelas baseadas em mais justiça social.

Y – yanomami. Um povo da Amazônia que é bastante belicoso. Quando um antropólogo chamado Napoleon Chagnon resolveu ser científico, ao contrário da maioria de seus colegas, e descrever os yanomami como eles realmente são, virou alvo de campanhas difamatórias e calúnias do povo da justiça social, que acredita no mito do bom selvagem (que reduz todas as interações de ocidentais com povos aborígenes a relações de opressores e oprimidos). Inventaram até que Chagnon, em parceria com um geneticista chamado James Neel, tentou fazer um genocídio nesses índios inoculando-os de propósito com sarampo. Uma associação inteira de antropólogos acreditou na calúnia e condenou publicamente Chagnon e Neel. O principal arquiteto da calúnia foi um jornalista, Patrick Tierney, mas nisso ele teve entusiástico apoio em departamentos de humanas Brasil afora. Hoje é praticamente impossível fazer qualquer pesquisa não alinhada com dogmas de justiceiros sociais com indígenas, especialmente estudos genéticos. Por isso, o geneticista octogenário da UFRGS, Francisco Mauro Salzano, até hoje usa amostras de DNA indígena que coletou nos anos 1960. Indígenas são monopólio da justiça social, bibelôs de estudos qualitativos inúteis.

Z – zulu. É o nome de um povo africano, mas também é o que negros universitários doutrinados na justiça social acreditam ser, apesar de serem brasileiros e terem assistido Chaves quando crianças como o resto de nós. Um grupo totalmente idêntico a eles, mas de cor invertida, são os carecas do ABC, que acham que são europeus arianos mas não passam de vira-latas comedores de arroz com feijão como o resto de nós.

Betine BombomDicionária Aurélia Buarca de Luanda de Neologismos e Ressignificações da Justiça Social