Entrevista

― Ela é gorda, ela é linda, diva, negra, lésbica, cadeirante, cado… cado o quê?
― Lésbica cado-poliassexual, é minha orientação sexual.
― Também é trans, em que sentido mesmo?
― Sou transmulher às terças, quintas e sábados, gênere fluide.
― E nos outros dias?
― Varia. Mas, com todo respeito, não cabe à oprimida se explicar para a privilegiada.
― Ah sim, com certeza, desculpe. Betine Bombom, seja bem-vinda à Jovem Pão FM, para essa entrevista exclusiva. Uma honra ter você aqui, você que é a maior especialista em justiça social do mundo.
― Não faz mais que a sua obrigação em ceder lugar de fala.
― Sim, com certeza. Mas ainda não terminamos a lista para os ouvintes saberem…
― Os ouvintes? Os? Você está reproduzindo machismo.
― Desculpe, xs ouvintxs. Para xs ouvintxs aprenderem sobre toda a sua vivência. Por exemplo, você também é birmano-senegalesa, certo?
― Sim. Naturalizada brasileira, mas eu diria “colonizada brasileira”, pois o Brasil ainda é parte do império colonialista ocidental e fui “naturalizada” (interessante essa palavra, muitas opressões são “naturalizadas”) contra a minha vontade.
― E é por parte de pai ou de mãe?
― Acho problemático você presumir o gênero des minhes progenitores, mas é por parte de tataravós.
― Quantas gerações no passado dão em tataravós?
― Não sei, sou de humanas e me orgulho de não colonizar a minha mente com matemática ocidental.
― Fantástico. Mas ainda não terminamos: você também milita contra o capacitismo e a gordofobia, acumulando lugar de fala como cadeirante e… que palavra você prefere? Eu usei “gorda”, peço desculpas se foi ofensivo.
― Sou transcadeirante, utilizo cadeira de rodas porque me identifico mais com esse estilo de vida. Tenho disforia de pernas. Não tenho problemas com a palavra “gorda”, mas seria interessante você fazer a concordância corretamente com o gênero que estou vivenciando no momento, “gorde” seria melhor agora, por exemplo, pois desde os últimos cinco minutos me senti genderqueer e agênero. Também pode dizer “dotade de massa adiposa empoderadora”.
― Certo, peço perdão pela concordância opressiva de gênero que fiz: desconstrução é isso né? Todos os dias! *risos*
― …
― OK… Betine, creio que nem teremos tempo de tratar de todas as suas vivências…
― É porque o sistema capitalista obriga a Jovem Pão a ter anunciantes e limitar a expressão de pessoas oprimidas, silenciá-las. Vocês contribuem para esse sistema maldito. Mas eu te perdôo hoje porque ao menos fez a sua obrigação de me dar um local de fala.
― Sim, e que generosidade sua nos perdoar. Mas vamos encerrar com algumas outras vivências: você também tem diabetes, é anarco-sindical-maoísta, torce para o XV de Piracicaba…
― Sim, tenho vivência de torcedore do XVzão. Mas no momento em que o XV ganhar algum título eu o deixaria, pois não é meu papel apoiar opressores.
― Teria algum outro time em mente caso o XV ganhasse um título?
― No meu bairro tem um time de tetraplégicos em formação, ainda não tem nome, mas se entrasse em campo e se oficializasse eu seria a maior apoiadora na arquibancada.
― O futebol é associado aos homens, é interessante que você também tem essa vivência, rompe os padrões.
― Sim, eu esmago o patriarcado todos os dias.
― Como você faz isso?
― Basta respirar, ser quem sou, já amedronta o capitalismo supremacista branco heterocissexista bem-dotado e desconstrói a homolesbotransxenogordoislamofobia racicapacimachista.
― Seu domínio da língua é impressionante.
― Não domino nada. Quem domina são os opressores. Você deveria rever seus privilégios e desconstruir essa dicotomia de dominância e submissão. Vivemos numa cultura tão obcecada com oprimir que até na genética se fala em “gene dominante”.
― Mas e a dicotomia entre opressor e oprimido?
― Essa entrevista está encerrada.
― Mas, Betine…
― É a última vez que eu aceito ser entrevistade por uma branca reprodutora de opressões, machista, transfóbica, misógina internalizada.
― Não há necessidade de me ofender…
― Engula o choro, não confunda a violência do opressor com a reação do oprimido.
― *soluços chorosos*
― Isso, derrame lágrimas brancas, lágrimas capitalistas de radialista privilegiada. Da próxima vez tenha mais sororidade. Venham aqui agora mesmo empurrar minha cadeira para eu sair desse estúdio. Não passo nem mais um segundo aqui dentro.

Betine BombomEntrevista