Querido diário… (3)

Manes (eu disse MANES, não manés),

precisamos falar sobre um preconceito que pouco foi tratado. É um preconceito que faz vítimas todos os dias, e essas vítimas são invisibilizadas.

Infelizmente, Mamãe continua reproduzindo preconceito dentro de casa, e me dei conta desse preconceito negligenciado hoje, quando ela me acordou aos berros às 11 e meia da madrugada.

“Acorda, garota!” (Disse ela, reproduzindo transmisoginia ao assumir meu gênero – hoje é segunda, e às segundas eu sou cado-fluidflux-menino.) “O almoço tá pronto e você aí, prostrada, roncando de boca aberta e coberta de cheetos.” (Reproduzindo capacitismo com pessoas dotadas de capacidades prostrantes e pessoas com dificuldades respiratórias roncocionais, além de gordofobia por fazer menção à minha refeição das 5h, e também imperialismo por chamar meu salgadinho de “Cheetos”, quando fiz questão de lutar contra o capitalismo imperialista comprando a marca local Xebek.)

Foi aí que ela, depois de reproduzir tantos preconceitos em menos de 30 segundos, disse:

“O que vão pensar de você, que acorda tarde desse jeito na segunda feira? Vê se toma tento, preguiçosa.”

Foi aí que meu coração parou. Tão calejado de ser alvo de reproduções diversas de preconceitos por conviver com minha mãe, meu coração teve de aguentar mais uma lança, mais uma forma de oprimir, mais um resultado da socialização de Mamãe numa sociedade patriarcal de racismo institucionalizado.

É um preconceito contra pessoas que têm ritmo existencial matino-diverso, que acordam “tarde” (muitas aspas aqui). Chamo essa opressão de CRONOFOBIA. É muito triste ser obrigadx a conviver com uma pessoa cronofóbica.

Só mesmo com muita sorodidade e desconstrução para acordar todos os dias entre as 11 e meia e as 14h já sendo oprimidx antes de tomar o café.

Betine BombomQuerido diário… (3)