Querido diário… (4)

Nação negra diabética que estudou na Unip,

por meses não falei da minha mãe por aqui, porque ela me censurou. “Se não parar de falar de mim na internet você vai ver o que é opressão de verdade morando na rua”. Sim: ela reproduziu classismo contra pessoas em situação de rua só porque eu disse a verdade: que, diariamente, quando ela me acorda às 11h da madrugada, ela reproduz machismo, gordofobia, homolesboxenofobia.

“Acorda, preguiçosa! [Reprodução de capacitismo contra neurodiversidade.] Pelo amor de Deus, quando é que você vai arrumar um emprego? [Apologia ao capitalismo e à meritocracia imperialista supremacista branca.] Eu não aguento mais, Nossa Senhora! [Reprodução de intolerância religiosa ao presumir que partilho de sua fé.] Não vai largar essa cadeira de rodas mais? [Reprodução de capacitismo mais uma vez.] Cria vergonha na sua cara, isso é pra quem precisa, você só usa isso porque não quer ser mexer e está gorda demais pra andar. [Reprodução de gordofobia capacitista.] Eu me preocupo com você, filha!” [Transfobia ao presumir meu gênero, gaslighting ao fingir preocupação.]

Eu é que me preocupo com você, mãe. Já que resolveu ler minha página, por favor tenha um pouco de sorolidariedade e entenda: eu não te chamei de machista, homofóbica, gordofóbica, capacitista. Você é uma mulher negra. Você não tem poder para ser machista, homofóbica, gordofóbica, capacitista, transfóbica. Você, por falta de consciência de classe, apenas reproduz machismo, homolesbotransxenogordoislamofobia e racicapaticismo. Há uma grande diferença. Eu não estou te insultado, estou expressando esperança de que um dia você se desconstrua e pare de reproduzir todas essas opressões anti-interseccionais.

E o mais triste é que a senhora alega ser “mulata”, se comparando a um animal de tração, em vez de reconhecer que é negra. Essa falta de pan-africanismo sua me destrói, me mata, piora meu diabetes. Para que tá feio.

Betine BombomQuerido diário… (4)